Hoje é o primeiro 27 de setembro sem meu pai. Ele estaria fazendo 63 anos e certamente comemorando com samba, a melhor caipirinha e algum prato que ele teria preparado com alegria e disposição. Desde que ele se foi em março, vítima da covid-19 e de negligências médicas e políticas, boa parte de mim também morreu. Venho ensaiando possibilidades de existência nos últimos seis meses e entendi que gostaria de fazer nascer algo nesse dia. Marcar a data de hoje como o parto de um projeto e de uma escrita pública e compartilhada é uma homenagem a meu pai, sempre tão ousado, criativo e realizador. Indiscutivelmente eu sucumbi com meu pai, mas tenho a chance de dar à luz a elaborações que venho gestando há algum tempo e nunca converti em rebentos. Esse espaço de escrita é um desses brotos necessários para que os germens não se deteriorem. Cresci com mãe professora de francês e pai torneiro mecânico que se tornou comerciante. Meu pai tinha um senso estético apurado e era bastante ligado à m...