Hoje é o primeiro 27 de setembro sem meu pai. Ele estaria fazendo 63 anos e certamente comemorando com samba, a melhor caipirinha e algum prato que ele teria preparado com alegria e disposição. Desde que ele se foi em março, vítima da covid-19 e de negligências médicas e políticas, boa parte de mim também morreu.
Venho ensaiando possibilidades de existência nos últimos seis meses e entendi que gostaria de fazer nascer algo nesse dia. Marcar a data de hoje como o parto de um projeto e de uma escrita pública e compartilhada é uma homenagem a meu pai, sempre tão ousado, criativo e realizador. Indiscutivelmente eu sucumbi com meu pai, mas tenho a chance de dar à luz a elaborações que venho gestando há algum tempo e nunca converti em rebentos. Esse espaço de escrita é um desses brotos necessários para que os germens não se deteriorem.
Cresci com mãe professora de francês e pai torneiro mecânico que se tornou comerciante. Meu pai tinha um senso estético apurado e era bastante ligado à materialidade das coisas; minha mãe, às transcendências. O discurso de minha mãe, bastante influenciado pelos ideais budistas e cristãos de humildade e supressão do ego, era muito forte e convincente, além de associado a ideias de uma suposta nobreza do intelecto e superioridade dos estudos formais abstratos em relação aos aspectos práticos da vida. As maiores confusões que me tomavam desde criança eram conflitos em relação a esses temas, que invariavelmente se convertiam em conflitos sobre meus princípios e meus desejos. Essa ligação com as abstrações e a suposta nobreza do pensamento em detrimento das sensações é um tema longo que remonta a Platão e sobre o qual já escrevi longamente em um trabalho acadêmico, mas gostaria aqui de relatar em outro tom.
Fui impulsionada aos questionamentos filosóficos e aos estudos abstratos como se fossem mais nobres que pensar na sobrevivência, em ter um trabalho com bom retorno financeiro ou na decoração da casa. Embora eu sentisse uma forte atração pelos assuntos corpóreos, pela materialidade, pela arquitetura ou pela culinária, a crença de que esses tópicos eram muito menores e de que eu deveria me dedicar a outras questões era muito forte, ao ponto de eu me esforçar para desprezá-los. Com isso, por muitos anos eu me forçava também a desprezar internamente os anseios e conquistas do meu pai, que aos olhos de minha mãe eram supérfluos e muito ligados a dinheiro e aquisição de bens materiais.
Embora eu tenha levado esse conflito a certos extremos, percebi que colocar as abstrações acima da vida tal qual ela se dá é um movimento que não atravessou a mim apenas; entendi que é um fenômeno epocal, em muitos níveis e camadas. E é em torno desse tema que pretendo inaugurar meu projeto de escrita por aqui, em textos publicados três vezes ao mês, potencialmente a cada dez dias. Iniciá-lo hoje, sem que tivesse um texto completo para compartilhar, é uma forma de me sentir ligada à vida tal qual ela se dá - e não ao mundo das ideias - e sentir meu pai vivo em mim.
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